
Na última semana, passando os olhos por um conceituado portal de noticias (entenda como você quiser) uma notícia interessante chamou minha atenção naquele mar bravio dominado pelo importante comentário esportivo e as últimas da nave BBB.
O Ministério Público Federal está processando a Editora Objetiva porque, a última edição do seu conceituado (agora pra valer) dicionário traz, como uma das definições para "cigano", "aquele que trapaceia", "velhaco" e coisas do gênero. Você pode ler a noticia aqui.
Antes de tudo, o aviso inevitável e que seguramente vai ser ignorado pelos possíveis criadores de caso: nada tenho contra o povo cigano e sua cultura. Pelo contrário, acho um grupo fascinante e que, como outros povos que, por destoar do que a sociedade considera como "certo e normal", foi perseguido e sofre, até hoje, com o preconceito.
Dados os avisos de praxe, vamos lá: QUE P&**% É ESSA? PRECONCEITO EM DICIONÁRIO?
Um dicionário não CRIA definições, Sr. Ministério Público. Ele tão somente colheta significados das palavras de um idioma ou outra área de conhecimento (como um dicionário de conceitos históricos). Dizer que um dicionário está perpetuando noções preconceituosas é inverter causa e efeito.
Posso dar meu testemunho pessoal: durante alguns anos vivi em uma cidade do interior do estado, aonde era (e ainda é) corrente associar a figura do cigano com vagabundos e trapaceiros. Um das expressões que eu mais ouvia por lá era que "x de cigano", onde x é um objeto qualquer vendido por um suposto cigano, e que era tão vagabundo que só durava o tempo do dito cujo receber o dinheiro e sumir.
As pessoas que diziam isso com certeza não foram influenciadas por um dicionário. Inclusive tenho certeza de que algumas delas nunca abriram um dicionário na vida.
Tudo que os responsáveis pela elaboração de um dicionário fazem é coletar esses usos da palavra e listá-los como verbetes. Aliás, o que se espera de um bom dicionário é exatamente enumerar o maior número possível de significados.
Em tempo: tomei a liberdade de consultar três dicionários de editoras diferentes, sendo um deles o Minidicionário da Língua Portuguesa, do professor e acadêmico Evanildo Bechara. TODOS eles listam o significado "pejorativo" no verbete cigano. Fica a dica para o MP: tirar TODOS os dicionários da língua portuguesa de circulação.
Essa ação do MP (movida por um cidadão de origem cigana, que está no direito dele), é só mais um sintoma da onda do estupidamente correto que nos assola à anos. Digo estupidamente correto, porque esse tipo de ação não faz absolutamente NADA para combater o racismo e outros preconceitos.
Apagar qualquer evidência de que exista preconceito NÃO é o mesmo que acabar com mesmo. Assim como processar cada bastardo que disse algo preconceituoso não vai tornar essa pessoa mais tolerante. O mais provável é que tenha o efeito contrário: o cretino ainda vai poder culpar o alvo do seu preconceito pelas sanções legais que sofrer.
A única e real forma de combater o preconceito é, em primeiro lugar, aceitar que ele existe (e não tentar varrê-lo para debaixo do tapete), seguido de ações de esclarecimento: fomentar a troca de ideias e o entendimento entre os diferentes grupos, etnias, etc, etc. Ao entender o outro, você deixa de ter medo do que ele representa, e passa a compreender um modo de vida diferente do seu. Seus horizontes se ampliam, e você dá o primeiro passo em um mundo maior, como diria Obi-Wan.
Preconceito surge da ignorância, e censurar dicionários não é uma boa forma de combater a ignorância, Sr. Ministério Público.